segunda-feira, setembro 11, 2006

 

Entrevista


Um comunicador chamado Martinho Lutero

Astomiro Romais nasceu no Espírito Santo, estudou quatro anos em São Paulo e acabou fixando raízes no Rio Grande do Sul. É jornalista, bacharel em Letras, teólogo, coordenador da habilitação em Jornalismo, do curso de Comunicação Social da Ulbra, e pesquisador com mestrado em Comunicação e Informação pela Ufrgs. Além da sala de aula - sua paixão maior -, alia estudos da comunicação a outras áreas que lhe são caras, estando entre elas a Teologia. Com apoio da Ulbra, está desenvolvendo em 2005 uma pesquisa sob o tema "Martinho Lutero como comunicador: incursões na teoria da recepção". Nessa entrevista, ele fala de algumas de suas descobertas nessa investigação.

Lançando um olhar de jornalista-pesquisador sobre a vida e obra de Lutero, em que momento o senhor identifica nele o viés do comunicador?

Astomiro Romais - À medida que fui fazendo leituras e me aprofundando nos estudos históricos e teológicos de Lutero, passei a observar e traçar relações da sua trajetória de reformador com a comunicação. Percebia cada vez mais claramente que sem as técnicas comunicacionais ele não teria sido o que foi. Percebe-se em Lutero uma clarividência e uma perspicácia extraordinária no tratamento da comunicação. É preciso considerar que Lutero nasceu antes da viagem de Colombo à América, que em seu tempo muitos ainda pensavam que a terra era plana e não havia a menor idéia do que pudesse ser eletricidade, viagens espaciais, telefone ou, até mesmo, uma simples pizza congelada. Lutero soube ler seu tempo, teve ousadia de observar o seu entorno com outro olhar e subverter o senso comum. Soube valer-se da comunicação para marcar posição, fazendo dela seu instrumento de contestação e veículo para a propagação de seus ideais.

Na área da comunicação, o senhor acredita que podemos tirar ensinamentos das experiências de Lutero?

Romais - Certamente, sobretudo por ter sido hábil no aproveitamento de uma técnica emergente, a recém-criada prensa dos tipos móveis de Guttemberg. Em vez de condenar o novo, no caso, a tecnologia - como era comum em seu tempo -, aliou-se a ela. Teve o cuidado de colocar por escrito 95 afirmações ou teses, disponibilizando-as para debate público na porta da igreja do castelo de Wittemberg. Os freqüentadores e simpatizantes as copiavam e reproduziam nas tipografias, gerando uma divulgação massiva. Tanto que em 20 dias as suas idéias já eram conhecidas em toda a Alemanha e em 30 dias estavam espalhadas por toda a Europa. Assim, ainda que fosse morto por causa de suas posições - como já acontecera com diversos antecessores, como John Hus - suas idéias sobreviveriam. Atribui-se a ele a frase: "Enquanto em Wittemberg bebo minha cervejinha, minhas idéias correm o mundo", referindo-se à magia da palavra escrita e multiplicada pela prensa tipográfica.

Podemos dizer que, no que se refere à comunicação, Lutero foi um homem à frente de seu tempo, usando recursos que hoje continuam tendo grande apelo junto ao público?
Romais - Lutero foi um homem de vanguarda, preocupado com as questões da comunicação em seus diversos aspectos. Produziu um texto, chamado de Catecismo Menor, cuja função era colocar a teologia ao alcance do povo simples e rude, inclusive das crianças. Reformou a missa, que era celebrada em latim e que o povo não compreendia, colocando-a na língua alemã. Introduziu, em lugar dos pesados cânticos gregorianos, canções e melodias populares, compondo e adaptando músicas cantadas pelo povo. Atento aos signos, criou uma logomarca conhecida como "Rosa de Lutero", de alto valor simbólico. A sua composição mais famosa, o "Castelo Forte", é uma espécie de jingle, chamada por alguns de a "Marselhesa da Reforma". Valeu-se também de meios como cantatas, incluiu mulheres nos corais, utilizou o teatro, os carnavais - que na época satirizavam os papas e o clero - numa linguagem rica e cheia de sentidos. Foi ferrenho defensor das escolas e da inclusão das mulheres nela, via na educação o grande fator de progresso de uma sociedade. Propunha, inclusive, uma educação lúdica, onde as crianças pudessem aprender com prazer e brincando, porque, dizia, "a juventude tem que dançar e pular, e pode aprender a cantar e estudar música com matemática". Defendeu a classe dos educadores, dizendo inclusive que se não fosse teólogo seria professor por não haver valor mais alto do que educar filhos de gente estranha. Cobrou das autoridades a criação de bibliotecas públicas, reivindicou apoio dos governantes na produção de bons livros. Como visionário da globalização, defendia o estudo de línguas, argumentando que "hoje é necessário falar com mais pessoas do que com o vizinho João". Entendendo a amplitude da comunicação, dizia, em uma de suas máximas, que "nas pessoas comuns, as mensagens entram mais rápido pelos olhos do que pelo ouvido".

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